quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Unicoisas e coisas boas

Há certos neologismos que são por demais oportunos, criados para incorporação breve aos dicionários mais especializados. Unicoisa é um deles, explicitado por uma mulher de rara inteligência, especializada em Filosofia Política, com pós-doutoramento na Universidade de Genebra.
Para a filósofa Maria Constança Pisarra, por unicoisa se caracteriza um tipo de instituição fingidamente de nível superior, que se esmera na concessão de diplomas de pouca valia, desfavorecendo imagens profissionais, ampliando frustrações, desconstruindo motivações e gerando múltiplas ações predatórias, físicas e jurídicas, públicas e empresariais.
As unicoisas iludem alunos e familiares com modernosidades as mais seduroras, olvidando-se por completo de oferecer um ambiente acadêmico moderno consistentemente emulador, compatível com os desafios de um contexto histórico celeremente evolucionário em todos os segmentos societários.
As unicoisas não privilegiam ampliação dos acervos bibliográficos, menosprezam desburocratizações, desestimulam a criticidade construtiva dos mais lúcidos, esmagam as potencialidades intelectivas dos mais atilados e favorecem o desenvolvimento de uma cultura de fingimento lastreda numa insípida relação professor-aluno, onde o primeiro finge que ensina e o segundo se imagina instruído, embora jamais educado.
Considero um crime de lesa-pátria a tolerância demonstrada nos últimos anos para com autorizações de cursos superiores possuidores de um exame de seleção de faz-de-conta, onde até alguns candidatos relacionados como aprovados sequer comparecem aos dias de prova.
A correção das atuais deficiências do ensino superior somente se concretizará quando alguns sinais emergirem nos horizontes do terceiro grau: pressão comunitária, fiscalização dos conselhos profissionais, atuação mais efetiva do Ministério Público e uma ampla auditagem delegada pelo Ministério da Educação aos colegiados estaduais responsáveis para coibição dos abusos praticados.
Entretanto, no ensino superior nem tudo está se degenerando. Há inúmeras iniciativas louváveis, ainda que minoritárias e incipientes. As mais promissoras: estímulo às reestruturações das representações acadêmicas, favorecendo uma maior cidadanização discente através de amplos debates sobre temas contemporâneos. Meio ambiente, ética profissional, compromisso comunitário, prestação de serviços voluntários, alfabetização de adultos, hortas comunitárias, associação de moradores, partidos políticos, candidaturas fichas-limpas, latinoamericanidade, fé e ciência, cooperativismo, entre tantos outros motes, seguramente principiarão a desindividualizar aqueles intoxicados por individualismos pernósticos e outros isolacionismos mórbidos, alguns respaldados em ontens e sobrenomes que nada mais estão a significar.
Em algumas institições superiores, um micro-questionário é preenchido por ocasião das matrículas. O exemplar que me chegou às mãos tinha apenas cinco questões: 1. Que temas você gostaria de coletivamente debater, no seu curso superior, para ampliar sua profissionalidade futura? 2. Que iniciativas você sugeriria ao seu Diretório Acadêmico ao longo do ano de 2010, fortalecendo uma maior integração entre corpos docente e discente? 3. Que textos você gostaria de ver disponibilizados na Biblioteca, incrementando sua indispensável complementação cultural? 4. Que sugestões você daria para uma avaliação discente isenta da falcatrua dos trabalhos remunerados elaborados por terceiros, que apenas privilegiam os financeiramente mais taludos? 5. Que duas questões você sugeriria na elaboração do questionário do próximo semestre?
Com o sistema de cotas, por etnia ou por escola pública, urge uma necessidade de agigantar as atenções para estratégias integracionais interclasses e intraclasses, desfavorecendo a formação de guetos, sempre discriminaórios, sementes primeiras de distorções comportamentais amesquinhadoras as mais diferenciadas.
No ensino superior, vale a pena ser um pouco mais criativo. Democrático sempre, populista nunca. O mérito sendo visto como alavancador, jamais promovendo rejeições espúrias de quem quer que seja.
(Publicada, em 07.01.2010, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cuecalogia

Uma nova área de estudos parece despertar as atenções nas universidades do mundo, inclusive no Brasil. A Cuecalogia, ramo científico que trata do uso da cueca para fins que transcendem o seu objetivo clássico, que é o de ser utilizada para encobrir os trecos reprodutores e a saída dos dejetos sólidos dos olhares fuxicosos e cupidinosos de traseuntes afoitos e curiosos.
Inicialmente, a Cuecologia destinava-se ao estudo anatômico de uma indumentária usada para esconder e proteger os teréns dos seres humanos masculinos. Denominada de cuequinha quando destinada ao uso das mulheres, que encobriam ou buscavam tornar mais sensuais seus triângulos das bermudas.
Nos últimos tempos, entretanto, algumas utilizações não-tradicionais da cueca propiciaram a busca por significações e utilizações pós-modernas da tão consagrada peça íntima, que tem origem no latim vulgar culu, que também deu origem a vários termos, inclusive culote, que nada tem a ver com o setor anatômico em destaque.
Três fatos recentes motivaram o aparecimento da nova ciência: os salafrários que portavam na cueca vultosas quantidades de dólares, remetidas por parlamentares para cabos eleitorais em vários estados brasileiros; o flagrante dado, pela PM de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, no pintor Rafael Machado, que portava 37 pedras de crack em pote dentro da cueca, incomodando até sua própria bunda que era avessa ao vício; e a prisão do rico e alucinado engenheiro nigeriano Umar Farouk Abdul Mutallab, que tentou acionar explosivos que levava na cueca, quando viajava no voo 253 da Northwest Airlines, devidamente flagrado por passageiros e tripulantes da própria aeronave, em pleno ar, quando ela se aproximava de Detroit, nos Estados Unidos.
Consultando especialistas, verifica-se que “os ‘shorts íntimos’ foram as novidades que chegaram com o século XX
. As cuecas passaram a ser fabricadas com tecidos e elásticos e se tornaram mais confortáveis. Ao contrário da roupa íntima feminina, que tem um aspecto mais sexy, o princípio da roupa íntima masculina é o conforto e a simplicidade, motivo pelo qual os shorts chamados ‘samba-canção’ se tornaram populares na década de 1980. ... Para o dia-a-dia, as lingeries mais indicadas são 100% de algodão ou de outras fibras naturais como o bambu, que tem propriedades desodorizantes e antibacterianas”. Uma das funções mais significativas da cueca era impossibilitar que os últimos pingos de uma xixizada fossem absorvidos pelas calças, tornando seus portadores constrangidos.
Lamentavelmente, o paranóico nigeriano, com sua tresloucada tentativa de escafeder-se para o além com os passageiros e tripulantes do avião que o transportava, gerou iniciativas de segurança que redundarão em incômodos de vários calibres. Uma delas: proibição de, uma hora antes da aterrissagem, reclinar as poltronas, ir ao banheiro, usar mantas e travesseiros, utilizar livros e jornais e coçar os bagos ou os fundos, ainda que a necessidade seja pra lá de imperiosa.
Comparando-se a tentativa terrorista do nigeriano com os flagrantes feitos nos outros dois casos citados, algumas inferências podem ser tiradas. A primeira delas é elogiosa por derradeiro às autoridades policiais brasileiras: a especialização alcançada na detecção de substâncias não fecais, tampouco urinosas, nas cuecas dos marginais. O que não aconteceu com as autoridades alfandegárias de Amsterdam, que não atentaram para o volume acomodado no campo anal do terrorista. Apesar das advertências enviadas pelo seu próprio pai a um agente da CIA sobre a alta periculosidade do filho.
Pretendem as autoridades aéreas internacionais estabelecer contato com as autoridades brasileiras para o estabelecimento de um PAC-CRAC, Programa Ampliado de Capacitação Contra Resíduos Anônimos na Cueca. Utilizando cães farejadores e mãos exploradoras, além das parafernálias eletrônicas e eletromagnéticas.
A contrapartida oferecida pelas autoridades internacionais se materializaria numa outra capacitação de bom tamanho: o PAC-LEP, Programa Acelerado de Combate aos Ladrões do Erário Público. A envolver também componentes do Poder Judiciário ainda não contaminados.
Pelo menos uma coisa é certa: com a Cuecalogia, auxiliaremos a gestão do presidente Lula a retirar o que pertence ao Erário Público das áreas destinadas exclusivamente aos detritos sólidos e líquidos da gente brasileira.
(Publicada, a partir de hoje, 04/01/2010, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os Impropérios do Aranha

Nas eleições 2010, quando amplos mandatos políticos serão renovados, Aranha se tornará uma excepcional arma. O Dicionário Brasileiro de Insultos, do Altair Aranha, terá uma dupla finalidade nos debates políticos que já estão à vista: a primeira, estontear o adversário por ele ignorar o significado do termo usado; e também por ele não avaliar a gravidade da acusação, se o impropério for teatralmente brandido.
Por exemplo, imaginemos, num debate, um cidadão dizendo para um parlamentar, dedo em riste e voz de trombada de carro grande: “Vossa Excelência, toda a sociedade já sabe, é um erotófobo!!” O acusado, portador, como a grande maioria, de um limitado vocabular, seguramente procurará aparentar estar por dentro do assunto, respondendo com argumentos os mais desconjuntados possíveis, possibilitando a continuação da sua fala, a revelar um civismo calibre pinto de pequinês.
Outro dia, numa câmara de vereadores nordestina, num estado fronteiriço a Pernambuco, um dos líderes partidários, diante de projeto apresentado por um dos pares, disse que a proposta era digna de um nefelibata. O aparte do autor da iniciativa veio de bate-pronto, sem qualquer vaselina: - Se para Vossa Excelência nefelibata significar elogio, eu agradeço de coração. Se, por acaso, for algo que me esculhambe, nefelibata é a puta que o pariu!!! E a sessão foi interrompida por alguns minutos, para que fosse explicado ao “ofendido” o significado do termo, “aquele que vive no mundo da lua, sem ser capaz de pôr os pés no chão e perceber a realidade”. Tal e qual aquele outro que apresentou um projeto de lei criando o Dia Nacional do Laranja, ignorando que “laranja” é todo simplório metido a sabido, que não percebe que está enriquecendo mundos e fundos de terceiros, ficando ele, no frigir dos ovos, apenas com os fundos de antes, estropiados como de costume.
E o que dizer dos políticos onzenários, aqueles que desejam lucrar com o mandato, além dos vencimentos recebidos? Que classificam de onagros os seus eleitores, os possuidores de cabeças duras, que vivem elegendo quem não presta, lamentando-se em toda mesa de bar, não imaginando serem eles mesmos os responsáveis diretos por cada chupin cabuleté eleito? Que se torna mais um ganhoso às custas de eleitores sempre desgramados, sempre lambisgóias?
No Dicionário Brasileiro de Insultos, uma primorosa pesquisa feita pelo Altair Aranha, que principiou a colecionar desaforos desde adolescente, para deixar nocauteados os colegas de escola mais trombudos, que ficavam com caras-de-tacho, olhos esbugalhados, rabos entre as pernas, abilolados por umas boas semanas, sem ação nem reação.
Nos mais diferenciados rincões brasileiros, pode-se facilmente detectar o analfabeto político descrito pelo Bertolt Brecht, aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. E que disse mais: “o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.
Pedi ao João Silvino da Conceição, meu irmão orientador em coisas da vida, que classificasse alguns políticos brasileiros. E ele me apresentou uma lista bastante abrangente: vulpino (raposa), bola-murcha (sem expressão), vapozeiro (traficante de maconha), polhastro (espertalhão jovem), fâmulo (baba-ovo), especioso (bom invólucro e mal conteúdo) e lagalhé (sem qualquer expressão).
Terminadas as explicações, o João Silvino ainda escolheu os dois insultos que irão proliferar em 2010: o preboste, o xeleléu que faz coisas indevidas, aparecendo para as punições, o chefe sempre se escafedendo; e o lambeta, aquele que adora fazer um fuxico, ainda que num microfone de plenário legislativo.
Que o eleitor brasileiro defenestre nas urnas de 2010 os muculas, os cloacinos, os doidelos, os toquistas, os mafabés e as lambanças de todos eles. Para que possamos aprimorar a nossa Democracia, favorecendo uma Cidadania que dignifique melhor o país no cenário mundial.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, 1/1/2010, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Para um melhor viver

Há uma reflexão do poeta Fernando Pessoa que envio, vez por outra, para leigos e religiosos que se imaginam plenamente puros, como se urinassem água tônica e obrassem massa italiana de qualidade ímpar. O trecho é o seguinte: “Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.
Em julho, numa das minhas vigílias hospitalares, acompanhando Melba, inspiração e luz do meu caminhar existencial, li uma reflexão do Prof. Dr. Jair Cândido de Melo, ex-reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA, centro de excelência reconhecido internacionalmente: “Quando quiser avaliar uma organização, não se fixe tanto na imponência de seus prédios ou de suas máquinas, observe as pessoas, veja se há brilho em seus olhos ou sorriso em seus lábios; converse com elas e sinta se há entusiasmo em suas falas. Encontrando isso, pode ter a certeza de que a organização está bem”. Um pensar emocionalmente sadio, possuidor de uma correlação positiva quase perfeita com uma afirmação de George Bernard Shaw, irlandês, autor de comédias satíricas que mundializaram seu espírito irreverente e inconformista, que inclusive o fez recusar o Nobel de Literatura de 1925: “O progresso é impossível sem a mudança e aqueles que não conseguem mudar sua mente não conseguem mudar nada”.
Os três pronunciamentos acima permaneceram em meu cotidiano por muitos dias, até quando me recomendaram a leitura de um texto do Dr. Wayne Dyer, Novas Ideias Para Uma Vida Melhor – Descobrindo a Sabedoria do Tao, editado este ano pela Nova Era. Um texto que me proporcionou o reencontro com a frase famosa do Bernard Shaw.
O Dr. Wayne desenvolve uma análise bastante consequente dos 81 versos do Tao Te Ching, escritos por Lao-tzu, guardião dos arquivos imperiais na antiga capital de Luoyang e possuidor de uma deslumbrante história de vida. Segundo historiadores especialistas, Lao-tzu, decepcionado com a decadência proporcionada pelos estados em continuados conflitos bélicos, decidiu migrar na direção do deserto. No desfiladeiro de Hanku, deparou-se com alguém que conhecia a sua reputação de homem sábio, que o incentivou a registrar a essência dos seus ensinamentos. Daí emergindo, através de cinco mil caracteres chineses, o Tao Te Ching, hoje o segundo livro mais traduzido do mundo, só vencido pela Bíblia Sagrada. Segundo os historiadores, o Tao foi escrito entre 460 a.C. e 380 a.C., em réguas de bambu, sendo múltiplas vezes reproduzidas, não sendo mais possível estabelecer a ordem original dos versos.
Para quem não está minimamente familiarizado, o conceito de Tao (Caminho) é algo que somente pode ser apreendido pela intuição. É o que existe e o que inexiste. O Caminho da espontaneidade natural, sendo o Te (a Virtude) a maneira de caminhar espontaneamente, na construção de uma perfeição, onde cada coisa é simplesmente o que é e faz. Assim sendo, o Tao faz tudo ao fazer nada.
O Tao não tem personalidade. Segundo ele, o que vitaliza o universo são dois princípios ou substâncias que atuam em recíprocas interações: o
yang (luz, calor, criativo, masculino) e o yin (sombra, frio, receptivo, feminino).
Somente a título de despertar, explicito para os leitores o 34º verso do Tao, com muita sensibilidade analisado, juntamente com os demais, pelo Dr. Wayne: “O Grande Caminho é universal; ele pode aplicar-se à esquerda e à direita. Todos os seres dependem dele para viver; ainda assim ele não se adona deles. Ele realiza seu propósito, mas não faz reivindicações para si mesmo. Ele protege todas as criaturas como o Céu mas não domina. Todas as coisas retornam a ele como para seu lar, mas ele não é o senhor delas; assim, ele ser chamado de ‘grande’. O sábio imita essa conduta: Ao não reivindicar grandeza, o sábio realiza a grandeza”.
Um dia, um meu Irmão, também Libertador, que perambulou pelo deserto, declarou que os Seus ensinamentos propiciavam Verdade e Vida. Estou plenamente convencido da parecença integradora dos dois Caminhos. Cumprindo bem um, estaremos comungando com o que foi mapeado pelo outro. Sábios caminhos para um viver mais condizente com uma Criação estabelecida há milhões de milhões de anos. Pelo Autor do Caminho dos Caminhos.
(Publicada, a partir de hoje, 26.11.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O português que muito amamos

Semana passada, numa madrugadora navegação internética, após envio de Reflexões de Caminhante para quase oitocentos endereços eletrônicos, Europa, França e Bahia, encontrei um blog, cuja autora assim se define: “mãe e avó coruja de gente bonita e realizada. Escritora, jornalista, distraída, pós-analisada, incoerente, cética (mas bato cabeça para Ogun e Oxun, meus pais), crítica, silenciosamente debochada (cansei de perder amigos) e indecisa. Mas sou feliz, faço o que gosto. Escrever é bom demais”.
Por desejar conviver com gente cuca-livre, descubro que a blogueira é autora de livros, um deles, já em edições consagradas, com um título por demais despertador. Um telefonema para o Cláudio Rocha, da Livraria Cultura do Recife, centro aplaudido de convivência mentalmente prazerosa, me proporcionou um acesso rápido ao texto editado pela Record, ano em curso.
Na orelha primeira do livro, Arthur Dapieve, que a editoa não o identifica, diz que a Angela Dutra de Menezes, em 2000, quando se comemorava 500 anos do trajeto cabralino Torre de Belém-Monte Pascoal, resolveu realizar a travessia ao contrário, para bem explicar Portugal através das páginas da primeira edição de O Português Que Nos Pariu. Segundo Dapieve, “Angela explica, é bom que se diga,sem as pompas e circunstâncias dos livros didáticos, paradidáticos ou que tais. Pois o seu olhar ‘índio’ consegue ser divertido e malicioso sem perder a ingenuidade e o espanto”. E diz que ela, sem dar pelotas para o politicamente correto, uma praga que anda deixando alguns textos com temperos bem comportados, nos fornece uma Receita de Português que sobremaneira nos encanta, deixando-nos com uma vontade de quero-mais da gota serena. Ainda que nos torne quase estonteados com uma revelação que poucos conhecem: a de que o verde e amarelo da nossa bandeira nacional não representam nossa mata e nosso ouro piroca nenhuma, sendo apenas e tão somente as cores herdadas da Casa de Bragança.
Após leitura e releitura repletas de anotações, senti ampliado meu amor pela terra natal de um ancestral que nasceu em Trás-os-Montes, Alto Douro, região que já foi província. Tendo sido possuidora do maior número de emigrantes, tornando-se a área que mais sofreu com o despovoamento. Inclusive o do meu tataravô Gonçalves, que se bandeou para o lado de cá já no século XIX, em busca de atividades promissoras no mundo brasileiro.
No livro O Português Que Nos Pariu, leitura que recomendo ao meu irmão xará Fernando Campozana, engenheiro, mestre-cuca e exímio menino-dançador, a autora faz um gigantesco alerta: Portugal não está botando a boca no trombone na divulgação dos seus feitos notáveis!!. Segundo ela, apenas Portugal, no século XV reunia condições tecnológicas para concretizar as portentosas viagens de descobrimento. E ela vai fundo, quando declara que a atual política de boca de siri lusa é decorrência do silêncio então estabelecido para preservação das terras descobertas, a exemplo do explicitado no mapa do padre Martin Waldseemuller, conhecido por Mapa de Waldseemuller, que “localiza, com erros mínimos de latitude e longitude, acidentes geográficos da costa ocidental das Américas”. E que assinala o cabo Horn, indicando com o brasão português de cinco quinas quem por ali teria navegado pela vez primeira. Um mapa rebatizado, em princípios de 2000, como Certidão de Nascimento da América, hoje integrando o acervo do Congresso dos EEUU, adquirido, em 2003, por “apenasmente” dez milhões de dólares.
Segundo a autora, de propósito ela não conta o milagre das fortificações portuguesas, como o Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, fronteira do Brasil com a Bolívia, inaugurado em 1783, localização tida como perfeita, em estudo aerofotográfico de 1980.
Mais que nunca, da parte de pai sou tataraneto de uma família portuguesa, com certeza. E de mesmo nome do notável poeta Pessoa, um também Fernando Antônio.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 25.11.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Babões na folia, 2010

As arrumações para a Folia de Momo 2010 se iniciaram no dia seguinte à noite do apagão que deixou um bocado de estados brasileiros sem poder ver a cara do Lobão, aquela ovelha maranhense metida a ministro com toda energia, apelidado suprapartidariamente de Dilminho.
Entre as melhores iniciativa, a troça Babões na Folia estrutura suas evoluções, em Afogados, como sempre recheadas de muitas mangações, todas elas baseadas em atitudes risíveis acontecidas nos últimos doze meses sem a menor noção de ridículo. Pelas suas diversas alas, desfilarão inúmeros dirigentes públicos, com suas trejeitadas políticas mais recentes, efetivadas com uma descerimônia de fazer corar frade de pedra, ignorando por completo, face uma descomunal aversão a livros, o explicitado pelo professor Williams Edwards Deming, pai do milagre industrial japonês, um dos papas da gestão pela qualidade: "Muitos esforços e muito trabalho apenas não são suficientes, como tampouco o são novas máquinas, computadores e automação. Poderíamos também acrescentar que estamos sendo arruinados pelos melhores esforços feitos com as melhores intenções, porém sem a orientação de uma teoria administrativa para a otimização do sistema. Não existe substituto para o conhecimento". E mais disse: "A transformação não significa apagar incêndios, resolver problemas ou criar melhorias simplesmente cosméticas. A transformação deve ser feita por pessoas que detenham um profundo conhecimento".
A Babões na Folia mandou confeccionar três faixas abre-alas: 1. "Quem tem um mapa mais rico, se orienta melhor no mundo. Quem tem mapa limitado fica mais frequentemente enrolado"; 2. "Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz... Um caminho é só um caminho."; 3. "Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete". Todas elas alertando uma classe média que está a carecer de um bussolar mais condizente com as exigências de uma hipermodernidade irreversível, sem os olhos voltados para os ontens que definitivamente já se foram, a vivenciar um hoje sem os dualismos ideológicos que apenas entusiasmam os simplórios de sempre.
A Babões na Folia, com os seus deboches e picardias, chamará a atenção sobre a necessidade de se reincorporar relações perdidas, os bons gostos esquecidos, os níveis culturais despedaçados por um consumismo imediato e asneirista, os despatetamentos da área esportiva, erradicando os cansaços generalizados, incomodativos por derradeiro, rimas perfeitas para as tocaias travestidas de mãe-dos-pobres.
Numa época de tantas carências, de ainda perversa distribuição de renda, onde se está vendendo uma bem embalada ilusão do sucesso nas telas cinematográficas, a denúncia do psicólogo Esdras Guerreiro, ex-docente-visitante do prestigiado Instituto Max-Planck, da Alemanha, se encaixa como uma luva: "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições . É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo, mas se reforça nos momentos de crise".
Nós, às vezes, ficamos muito seguros do nosso aprendizado do passado. E sentimo-nos bem fundeados sobre coisas que aprendemos quando éramos moços, perdendo, por ingenuidade, o bonde da história. Porque o bonde sempre está em movimento e com uma alienação cada vez maior. E quando as pessoas perdem esse bonde, começam só a olhar para o passado, nostálgicas, sem qualquer reoxigenação. Imaginando tresloucadamente que o céu é bem pertinho da terra. E que nunca mais aparecerão tiranos assassinos como Hitler, Stalin e Mussolini. Principalmente na América Latina.
A classe média brasileira necessita assimilar duas reflexões de dois expoentes da educação brasileira. A primeira é de Paulo Freire, pernambucano que precisa ser mais responsavelmente analisado: “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho”. A outra é do educador baiano Anísio Teixeira, que assim se posicionava: "Eu não tenho responsabilidade nenhuma com as minhas idéias. Eu tenho, sim, uma responsabilidade com a verdade".
Quem tem acurado grau de maturidade, sabe caminhar. Quem não tem, continua sobrevivendo mal, atrelado ao me-disseram antissocialmente mundano. Sócios efetivos que são da Babões na Folia, da ala Turma do Tabaco Leso.
(Publicada, a partir de hoje, 23/11/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Carta pela Compaixão

Um diferenciado avivamento cristão, agora de caráter planetário, parece se agigantar nos últimos tempos. Uma resposta rotunda, como dizem os gaúchos, a um pequeno documento, que anda percorrendo o mundo ortodoxo, intitulado Confissão de fé contra o ecumenismo. Assinado por seis metropolitas ortodoxos, da Grécia, da Sérvia, do Kosovo e dos Estados Unidos. Um texto bastante violento contra o diálogo entre religiões, sinistramente semelhante aos utilizados pelos tradicionalistas de todas as denominações.
Os signatários afirmam claramente: “como cristãos que acreditam na Santa Trindade, nós não temos o mesmo Deus de nenhuma outra religião, nem o das chamadas religiões monoteístas, Judaísmo e Maometanismo, que não acreditam na Santa Trindade". E realizam várias acusações: 1. Que desde o segundo milênio, as heresias se dividiram; 2. Herético é o cristianismo “papista, berço de todas as heresias e de todos os erros”, que começou mal na Idade Média e foi piorando, exagerando suas doutrinas eclesiológicas, mariológicas, chegando a corromper a liturgia; 3. Um cristianismo que inventou a “pan-religião” e reconheceu uma “vida espiritual” nas outras fés, protegeu os grupos carismáticos e a Nova Era, recebendo em troca a vergonha da corrupção; 4. Os protestantes sendo piores, pois perderam os sacramentos; 5. O único diálogo admissível com essa massa de hereges passa pelo batismo, posto que o que receberam não vale nada; 6. Que o Credo não é suficiente, carecendo de uma expansão, do tipo antiecumênico. E por aí vai. Segundo analistas especializados, o documento lembra muito de perto – pelo léxico e até pelos objetivos – o tradicionalismo católico, o integrismo luterano, o fundamentalismo congregacionalista e os exilados anglicanos.
Um avivamento cristão eminentemente ecumênico não se fez tardar. No último dia 15 de novembro, em Lisboa, representantes de várias confissões religiosas e não-crentes, lançaram uma Carta pela Compaixão, concretizando uma iniciativa lançada em fevereiro do ano passado por Karen Armstrong, uma ex-freira católica que se tem dedicado ao estudo das religiões monoteístas, autora de A Grande Transformaçãoo Mundo na Época de Buda, Confúcio e Jeremias, Companhia das Letras 2008, onde ela busca identificar a origem e o papel das religiões no mundo moderno.
Na Mesquita Central de Lisboa, onde estiveram presentes representantes da Comunidade Judaica, Igreja Católica e da Comunidade Islâmica, além de Mário Soares, ex-presidente de Portugal e atualmente Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, o padre Peter Stilwell, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, assim se pronunciou:
A carta, cujo lançamento hoje nos reúne aqui, elege como referência a ‘compaixão’, emoção valorizada pelo menos nas principais tradições religiosas. É, como vários já testemunharam, uma palavra que não faz justiça a outras, mais antigas, cujo sentido se apagou ou distorceu com o tempo. Refiro-me à ‘hesed’ da tradição bíblica, o ‘amor das entranhas’ que os primeiros cristãos de língua grega traduziram por ágape e os de língua latina verteram no neologismo caritas, cuja raiz é a ‘charis’, ou graça, pedida de empréstimo aos gregos. Em suma, um amor marcado pela gratuidade, que encontra paralelos e convergências noutras tradições antigas. Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção ‘química’ pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam ‘virtude teologal’. Nesse sentido, antes de ser ação ela é atenção, vigilância. Dir-se-ia que é a condição do outro que abre em nós a fonte da nossa própria humanidade. Por isso, a compaixão se manifesta como resposta espontânea à grandeza ou miséria do outro: um excesso que transborda do coração de qualquer homem ou mulher, independentemente da sua filiação ideológica e religiosa, ou ausência dela, porque a todas antecede. Contudo, na sua delicadeza, a compaixão arrisca-se a ser perdida de vista por entre a multiplicidade de sentimentos e emoções que parecem mais relevantes para a vida quotidiana. Pode parecer uma emoção débil, sintoma de fraqueza perante a crueldade do real. Identificá-la e sublinhar a sua grandeza aos olhos do mundo, como o pretende fazer a rede que se tece em torno da Carta pela Compaixão, é por isso da maior importância. O cuidado atento pelo outro, próprio da compaixão, questiona o valor absoluto por vezes atribuído à afirmação da identidade e aos nossos direitos. Nisso se esconde um fermento de humanidade e mesmo uma proposta civilizacional”.
Eis, abaixo, a Carta pela Compaixão, um documento também apoiado pelo Dalai Lama, pelo brasileiro Cândido Mendes e pelo arcebispo Desmond Tutu, entre muitas outras lideranças significativas:

CARTA PELA COMPAIXÃO
O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica
”.

A intenção primeira do documento é unificar, inspirar e levar de volta a compaixão ao coração da sociedade mundial, dado que a compaixão é considerada a Regra de Ouro das principais religiões do planeta.
Em vários locais do mundo, assegurada já em Nova York, Cairo, Londres, Ramallah, Melbourne e Buenos Aires, uma imensa placa de madeira será afixada. O texto pode ser visualizado no endereço: www.charterforcompassion.org.
Pessoas de todo o mundo contribuíram na estruturação desta Carta. Ela transcende diferenças religiosas, ideológicas e nacionais, tendo sido elaborada por pensadores de muitas tradições, com paixão, discernimento, convicção intelectual e esperança. A versão final da Carta foi lavrada por um Conselho da Consciência, formado por dezoito pensadores religiosos e líderes mundiais renomados.
A pira foi acessa. O caminhar vitorioso estará na dependência da nossa criatividade e da nossa coragem de radicalmente ser antes de apenas ter.

PS. Agradeço ao meu irmão anglicano Rev. Ivaldo Correia, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, pelas orientações primeiras sobre a Carta pela Compaixão.